segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Cemitério de Japaratuba

1) Me disse o Walter Lima Jr. certa vez: - "O que faz o lugar são as pessoas." E quem me disse isso não foi o Walter Lima Jr. diretor, roteirista, produtor, montador - e sim o Walter Lima Jr. ser humano, com o perdão do clichê.

2) O curso de Cinema da PUC é engraçado. Lá, os estudantes (como o nome sugere), ainda não são nada; no entanto, todos se dizem diretores, roteiristas, produtores, montadores. Antes que me perguntem: sim, eu também sou estudante de Cinema da PUC. Sou um réu confesso. E o Walter Lima Jr. é professor. Somos dois réus confessos - porém, com as devidas ressalvas.

3) O hábito de se trancar em uma sala escura e assistir filmes durante horas deixa todos os estudantes de Cinema da PUC com uma palidez mórbida. Repito: mórbida. Mesmo eu, que nunca gozei de uma saúde exemplar, me sinto um Michael Phelps ao adentrar a sala de aula. Isso, graças às minhas faces minimamente ruborizadas da natação. Também é curioso observar que os estudantes de Cinema da PUC não gostam de Cinema. Isso mesmo. Eles detestam o Hitchcock, odeiam o Fellini, abominam o Bergman. Na PUC, o sujeito enche a boca pra dizer que foi terceiro assistente de direção em 'Última Parada 174' mas não derrama uma lágrima em 'Ladrões de Bicicleta' ou no discurso final do Chaplin em 'O Grande Ditador'. O glamour em torno da profissão é maior que qualquer outra coisa.

4) Imaginem vocês se o Walter Lima Jr. saísse pelos corredores da universidade gritando: - "Eu escrevi o roteiro de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol!'" ou: - "Eu dirigi 'A Ostra e O Vento!'" Pelo contrário, ele se contenta em rir com uma cena dos Irmãos Marx ou do Peter Sellers. A minha ira aos estudantes de Cinema da PUC é tamanha que chego ao ponto de querer escrever: qualquer salva-vidas de piscina é mais importante que um cineasta. Posso enfatizar: o título de cineasta é inútil no afogamento. Mesmo ciente de que não é razoável comparar duas funções e finalidades diferentes (como um cineasta e um salva-vidas certamente os são), aposto que o Walter Lima Jr. concordaria comigo. E olha que o Walter Lima Jr. é um dos maiores amantes do Cinema que eu já tive o prazer em conhecer.

5) Em julho, viajei à Aracaju em companhia do meu tio Bob - um norte-americano apaixonado pelo nordeste do Brasil. Por um dia, pegamos o bugre para conhecer o pequeno município de Japaratuba, a uma hora da capital sergipana. Foi lá que o Tio Bob viveu nos anos 70, quando preferiu um trabalho de eletrificação do interior de um antigo país de 3º mundo a lutar na Guerra do Vietnã. A caminhada pela pracinha, pela igreja e pelos bares corria muito bem, obrigado. Até que o Tio Bob se vira para mim e dispara: - "vamos ao cemitério?" Era inevitável esconder o meu desconforto diante do inusitado convite: eu só pisara em um cemitério uma única vez, no Rio de Janeiro, enterro do pai de uma amiga minha. Mas, para não bancar o sem-educação, respiro fundo e finjo agir naturalmente: - "claro, sem problemas."

6) Guardando o portão está um coveiro. Meu tio pergunta, com seu sotaque carregado: - "Faz mal entrar aí?" "Pode fazer mal ao senhor." - responde o espirituoso coveiro. Meu tio ri e entra, seguido por mim. Lá dentro, um calor senegalês. A pobreza do lugar é quase fotojornalística: montes de terra iguais, com uma cruz de madeira cravada em cima. Nada de anjos, lápides, mausoléus ou outras tentativas de se embelezar a morte. Ele me chama para ver o primeiro túmulo. Me aproximo.

7) - "Está vendo este aqui? Era o Piolho, um grande amigo meu. Jogava futebol como ninguém. Um verdadeiro artilheiro." Não sei se o calor forte na cabeça me fez delirar mas, na hora, comecei a imaginar o Piolho correndo o campo inteiro, driblando o goleiro e chutando em gol... Meu tio continua: - "Trabalhamos juntos na prefeitura da cidade. Nós saíamos de lá direto pra jogar, todas as noites. Os jogos eram verdadeiros acontecimentos, todos iam assistir o time local contra um time de alguma cidade vizinha." Eu imaginava noites cobertas pela fumaça dos fogos de artifício, arquibancada cheia de pais e filhos, cheiro de pipoca no ar. Meu tio trava por um instante: - "Ele infartou em 2004; uma pena." Percebo que, para ele, a visita ao cemitério era uma jornada sentimental.

8) Após fazer o sinal da cruz, se afasta, em direção ao segundo túmulo: - "Esta aqui era a Fátima, uma moça muito bonita... Todos os rapazes da cidade eram apaixonados por ela. Morreu ainda jovem, nos anos setenta, em um acidente de carro." E de fato... como a Fátima era bonita! A fotografia no túmulo mostrava o rosto de uma moça de cabelos pretos curtos, brincos dourados e um belo sorriso. Imaginei todos os rapazes da cidade disputando a atenção da moça com buquês de flores, serenatas, jóias... E o pai - um gordinho de longos bigodes negros - proibindo sua saída de casa.

9) E assim continuamos, andando e parando, por mais uns cinco ou seis túmulos. A cada um deles, o Tio Bob contava uma história mais incrível do que a outra. A essa altura já era impossível esconder o meu entusiasmo. Ao imaginar o Piolho, a Fátima, ou qualquer um daqueles personagens fantásticos, sentia uma vivacidade nunca sentida antes. E foi então que lembrei da frase do Walter Lima Jr. - "O que faz o lugar são as pessoas." Era o óbvio, mais uma vez se exibindo diante de mim, em toda a sua obviedade: aquelas pessoas enterradas no cemitério de Japaratuba estavam mais vivas que os estudantes de Cinema da PUC.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Sotaque Nordestino

1) Nenhuma crítica pode ser construtiva. Até hoje, todas as criticas construtivas que recebi, me destruíram. Crítica construtiva é uma contradição em termos.

2) Por exemplo: no mês de julho, a Madalena, minha cunhada, me chama: - "Brenno, tenho uma crítica construtiva a te fazer." Disfarço a minha preocupação: - "Prossiga, prossiga..." E ela: - "Três amigas minhas que foram no show dos Ganeshas ontem gostaram muito de toda a banda, menos do seu sotaque nordestino." Já fico estremecido por dentro. Ela ainda completa, como quem dá uma última punhalada: - "Você é carioca, cara... Fica um pouco forçado."

3) Não foi uma, nem duas, mas três pessoas criticando a mesmíssima coisa, da primeira à última palavra: o sotaque nordestino. Ao longo da vida, é importante não perdermos a capacidade de nos espantarmos com as coisas. E eu fiquei espantado como há muito não ficava. Minto. Há pouco tempo me espantei quando uma professora da PUC me disse que sentia mais prazer ouvindo a 5ª Sinfonia de Beethoven do que tendo uma relação sexual. Oras, tudo bem que música é admirável, literatura é sublime... Mas só o sexo provoca ereção.

4) Meu amigo Caio Moraes é o oposto: ele não se espanta com nada, absolutamente nada. A faculdade o transformou em um estudante de História radiante de o ser. E ele não diz um "oba" sem lhe pingar História. Se eu lhe contasse que fulano matou o pai e depois se casou com a própria mãe, ele não se espantaria. O Caio não se espanta. Um historiador não se espanta. Recorreria à Grécia Antiga, a Eurípedes, Ésquilo e Sófocles: - "Édipo Rei também fez isso" - seria uma possível resposta do Caio. Ou seja: tudo tem sua justificativa nos cursos da História.

5) Outro dia, o Caio me chamou de intelectual. Tive que rir: perto do Caio, eu sou de uma ignorância enciclopédica. Mas pouco importa. Onde estava mesmo? Ah, sim, falava do meu sotaque nordestino. Em um primeiro momento, tento explicar à Madalena que os Beatles também foram criticados no início da carreira porque eram ingleses e cantavam com sotaque norte-americano. Lembro-me do Paul McCartney declarando, em uma entrevista: - "Nós ouvíamos muito o Elvis Presley." Comigo aconteceu o mesmo: eu ouvi muito o Raul Seixas.

6) E aquele sotaque da Bahia, aquela irreverência, aquela malícia, se tornaram as minhas referências naturais. Forçado seria tentar puxar mais o "r" e o "s" na hora de cantar. Eu não canto assim. Se a ópera, para soar bem, tem que ser em italiano ou em alemão, pra mim, o rock brasileiro tem que ter o sotaque nordestino.

7) Em um segundo momento, tento explicar à Madalena que o vocalista é sempre o maior alvo das críticas, pois é quem está mais exposto sob os holofotes. Pergunto a ela: - "Ninguém falou do sotaque nordestino das guitarras, não é?" Ela não entende: - "Como assim?" Insisto: - "As guitarras... Alguém reclamou?" E ela - "Não..." Pois é, ninguém reclamou. Mas, o Keleta toca guitarra como um menininho do sertão toca uma viola caipira ou uma sanfona, descalço, pedindo esmola, dentro de um trem. E ninguém reclama de nada, porque é maravilhoso. Ouçam "A Indesejada".

8) A minha resistência em ouvir artistas novos é inversamente proporcional à quantidade de propaganda que os mesmos recebem. Recentemente fui apresentado - após quase dois anos de seu laçamento - a "Back to Black", CD vencedor de cinco Grammys, da Amy Winehouse. Eu só a conhecia pelas fotos escandalosas no tablóide The Sun, sempre bêbada, com um cigarro na boca- e pelo hit "Rehab", que nunca me chamou muito a atenção. Pensava comigo mesmo: - "é puro marketing, nenhuma música..."

9) Eis que, ao ouvir o CD inteiro pela primeira vez, cheguei à conclusão óbvia: "Back to Black" é uma obra-prima contemporânea. E a Amy Winehouse é branca, inglesa, mas canta como uma negrinha do Mississipi.

sábado, 15 de agosto de 2009

Cheirinho de Paris

1) A elite do Brasil despreza o Brasil. Para fugir da obviedade, hoje vou recorrer ao Orkut - sim, o Orkut. Esta fantástica rede virtual de relacionamentos é um espelho da nossa sociedade.

2) Antes de prosseguir, me sinto no dever de compartilhar com os leitores o meu desprezo pelos que não têm Orkut. Desculpem o exagero: desprezo determinados amigos que já tiveram Orkut, mas apagaram a conta sob alegação de "não ter tempo". Ora, isso não é desculpa. Ter Orkut nos dias de hoje se mostra tão necessário e obrigatório quanto ter uma carteira de identidade ou um CPF. A pessoa que não tem Orkut não existe. Logo, ainda corre o risco de acabar como indigente na mesa dos estudantes de medicina da UFRJ.

3) No Orkut percebo um dado curioso: noventa - para não dizer cem - por cento dos usuários oriundos de classes sociais mais abastadas têm o seguinte álbum de fotos: "Europa", ou "Eurotrip"; seguido sempre do ano da viagem (2009, 2008, etc., etc.). É uma fórmula, observem. Encontra-se ainda muitos: "Disney" ou até mesmo "Mochilão Buenos Aires", seguidos também pela data. Jamais você verá um "Amazonas 2007" ou um "Pantanal 2006".

4) Lembro-me de quando a crise no Senado começou e o presidente Lula estava em Paris. Ora, um presidente da república deveria ser proibido de sair do próprio país. Não me venham falar que o nacionalismo é um sentimento ultrapassado, que os conceitos de fronteira mudaram com a globalização, etc., etc. Vejam o exemplo do Jorge de Lima e do Ariano Suassuna: os dois nunca saíram do Brasil. Certa vez, o poeta alagoano autor de A Inveção de Orfeu afirmou, sem nenhum pudor: "nunca saí do Brasil e não sinto necessidade disso". O Suassuna, por sua vez, conheceria Portugal, no máximo, por ser um dos países que têm ao menos "o bom senso de falar português". Caso contrário, O Auto da Compadecida, A Pedra do Reino e outras jóias da dramaturgia brasileira não existiriam. A Paris do Suassuna é João Pessoa.

5) Ao citar Paris, lembro-me da Livraria da Travessa. Trabalhei como vendedor de CDs e DVDs da loja do Shopping Leblon durante um ano. Certa vez, uma senhora (muito bem arrumada, diga-se de passagem) me pediu: - "Gostaria de um CD com cheirinho de Paris... O que você tem?". Fiz uma breve pausa. Fingi não entender o tom figurativo da sua pergunta: - "Mas como assim cheirinho de Paris, minha senhora?". Ela continuou: - "Ah, quero ouvir uma chanson que me lembre uma boa taça de vinho sob a Tour Eiffel, em uma tarde ensolarada". Fiquei apavorado.

6) Aquilo já era estupidez demais para mim: "chanson", "Tour Eiffel", "tarde ensolarada"... A reação adequada seria rir na cara dela. Porém, devido às leis éticas que me guiam inconscientemente, me segurei, engoli seco. Preferia não acreditar no que acabara de ouvir. Fui obrigado a passar a bola para um outro vendedor, o Renan; teria sido contrário aos meus princípios indicar a tão nobre senhora um CD da Edith Piaf ou do Charles Aznavour.

7) Lembrei-me da frase do Nelson Rodrigues: "qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas". O mesmo vale para a música. Se o Charles Aznavour fosse brasileiro, seria apenas um Roberto Carlos sem a mesma emoção. A França, pobre coitada, nunca pariu um Milton Nascimento, um Luiz Gonzaga.

8) A resposta do Renan beirou a genialidade, era o vômito triunfal do povo brasileiro, que estava engasgado há tempos: "Minha senhora... Serve cheirinho do bueiro parisiense?"

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Bunda da Fran Ou Caio Moraes

1) Acabei de reler "Kafka de Crumb". Como o nome já diz, é uma pequena biografia de Franz Kafka ilustrada pelo quadrinista underground Robert Crumb. Deixando os talentos de lado, percebi que, assim como Kafka, sofro de um mal irremediável: a angústia.

2) Muitos são os motivos da minha angústia; mas o principal sempre foi a morte. Na verdade, não é nem o medo da morte em si, de estar andando na rua e de repente ser atingido por uma bala perdida - e sim da eternidade que há de vir com a morte. Não me conformo em morrer para sempre.

3) Minha primeira crise existencial foi aos cinco anos de idade. Lembro-me perfeitamente bem. Estava na banheira de um hotel em São Paulo quando comecei a gritar para a minha mãe, que estava no quarto: "Eu não quero morrer! Eu não quero morrer!". Assustada, ela correu para o banheiro, crente que eu me afogava. Desfeito o mal entendido, consolou-me sabiamente: "Calma, meu filho, você é tão novinho... Ainda falta muito pra isso."

4) A segunda crise foi aos quinze ou dezesseis, não tenho certeza. Assistia na televisão uma entrevista da Marília Gabriela com o Paulo Zulu (podem rir, eu deixo). Os dois conversavam trivialidades quaisquer, quando o surfista/modelo repentinamente dispara: "tento aproveitar cada momento ao máximo, porque tudo acaba... Até a própria vida acaba, não é mesmo?". Pronto. Eu, que já tinha ouvido cada atrocidade nessa vida... Mas foi um grande clichê proferido pelo Paulo Zulu que me derrubou.

5) Fui encaminhado ao psiquiatra. Meus pensamentos obsessivos novamente haviam sido desencadeados (riam mais). Quanto mais tentava lhe explicar minha angústia ao imaginar os próximos cem, duzentos, trezentos milhões de anos na total inexistência - mais angustiado eu ficava. Ele me perguntava, com certa frequência: "Você já experimentou alguma droga?" ou "o que você anda lendo?". Algumas sessões e receitas de remédios tarja-preta depois, cá estou, ainda aprendendo a controlar e lidar com a minha angústia.

6) A última noite de sábado estava angustiante. Dentro de casa, um tédio enlouquecedor. Resolvo dar uma volta no Baixo Leblon. Depois de comer um pastel de camarão com catupiri no BB Lanches, entro na livraria Letras e Expressões. Passo a vista nas estantes de teatro, poesia, literatura estrangeira. Nada de interessante. Na estante de auto-ajuda encontro alguns títulos, no mínimo, curiosos: "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas" - "certamente não é lendo esse livro", penso comigo mesmo. Nada de interessante.

7) Já deixava a livraria quando o milagre acontece. Em um relance, vi a capa da última edição da Playboy: "FRAN tástica!" Por um instante me faltou o ar. Cocei os olhos. Li novamente: "FRAN tástica". Pouco importava a falta de criatividade dos editores com o título da revista: pouco abaixo via-se uma bunda linda - a mais linda de todas - completamente nua. "Meu Deus!" - comento comigo mesmo, maravilhado. Logo descubro que se trata da terceira colocada da última edição do Big Brother Brasil, Francine Piaia.

8) Permaneci inerte durante os trinta minutos seguintes. Desculpem, posso estar exagerando. Sou tomado pela afobação de contar o episódio aos leitores. Mas foi bastante tempo, podem acreditar. Meus olhos não desgrudavam daquele pequeno pedaço de papel que, pra mim, era maior (em todas as acepções da palavra) que os bairros do Leblon e de Ipanema juntos.

9) Naquele instante, todo o agitado mar de angústias que eu sinto dentro do peito se apaziguou. Meu pensamento era um só: a bunda da Fran. Suas curvas, seu volume, suas sombras. A marquinha de biquíni... De onde ela era? Minas? São Paulo? Ou seria do Sul? Será que algum dia iria conhecê-la pessoalmente? E foi então que eu percebi o óbvio: a bunda da Fran - ou o sexo, no geral - é um brinquedo, uma distração, uma terapia, um narcótico, uma obrigação, e uma patética defesa contra a certeza da morte. A natureza protege as nossas mentes deste abismo tão temeroso e obscuro.

10) Não comprei a revista. Também, não era preciso: a visão da bunda já bastava. E a bunda se bastava, assim como o sol se basta para existir e continuar queimando sozinho. A bunda da Fran era o Brasil.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Novas Tragédias Cariocas I

1) Não existe um negro feliz. Calma, já explico. Antes disso, devo admitir ao leitor que sempre gostei de frases de efeito. Fui um daqueles adolescentes que se emocionava ouvindo o Renato Russo cantar "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" em Pais e Filhos. Mas, pela primeira vez, resolvi começar a crônica com uma frase de efeito.

2) Sei perfeitamente que um dia posso me arrepender do que escrevo aqui hoje, aos vinte e um anos. Esse texto com certeza ainda não faz parte da minha fase literária madura - se é que algum dia vou tê-la. Mas o sujeito, morando no Rio de Janeiro, aos dezessete anos já acumulou tanta experiência de vida quanto um Rimbaud. Logo, aos vinte e um (todos vividos atentamente no Rio), me sinto à vontade para fazer uma afirmação desse tipo: "não existe um negro feliz".

3) Em uma sociedade tão racista quanto a nossa, nada soa mais falso do que a felicidade de um negro. Quando um negro sorri, ele nega quatro séculos de escravidão. Nega as senzalas, o açoite. Nega o sofrimento de seus antepassados. E nega também ver toda a sua cultura roubada pelos brancos: só na música do séc. XX, do samba até o jazz e o blues - tudo veio dos negros; hoje servem de fundo em coquetéis da alta sociedade. Seria o mesmo se os parentes e amigos das vítimas do vôo 447 da Airfrance organizassem uma grande festa no dia do acidente. É um sorriso carregado de culpa.

4) Na semana passada fui cortar o cabelo e por acaso ouvi a conversa de duas senhoras dentro do salão. Uma delas contava um episódio que teve como palco um prédio de alto luxo em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro. Vamos lá: um entregador de pizzas - negro - estaciona a moto em um canto e se encaminha até a portaria. Deseja boa noite ao porteiro e avisa que é para a Dona Arlete, do setecentos e dois. "Meu amigo, sinto muito, mas preto não entra no prédio" - é a resposta do porteiro.

5) Ora, qualquer um teria ficado atônito ouvindo o que o entregador acabara de ouvir. Mas ele, com uma serenidade quase angelical, continua: - "mas meu chefe me manda embora se eu voltar para a loja com a pizza debaixo do braço". O porteiro solta um "paciência, ué" e diz que está apenas cumprindo as ordens da casa. O entregador explica que é tarde, mora longe, ainda tem que pegar dois ônibus para voltar para casa. Além disso, tem uma filha pequena em casa que está doente; se perder o emprego, não tem dinheiro para comprar os remédios dela, muito menos pagar um médico para ela etc., etc. O porteiro, indiferente ao apelo, interrompe-o: - "meu amigo, olha aqui: já falei três vezes: preto não entra no prédio! Tá entendido ou quer que eu chame a polícia?"

6) Devo fazer uma breve pausa para comentar o tom sensacionalista com que uma das senhoras - a narradora - falava. Não me espantaria em nada vê-la trabalhando como editora-chefe do Meia-Hora, formulando as manchetes mais sangrentas e pornográficas do atual jornalismo fluminense. Se quando chove em cima das igrejas, os anjos escorrem pelas janelas, quando você torce um exemplar do Meia-Hora, escorre sangue das páginas. A outra senhora ouvia tudo tão atentamente que nem piscar os olhos ela piscava, como se assistisse uma palestra de Jean-Paul Sartre e/ou Simone de Beauvoir.

7) Mas voltemos a história. O entregador, pobre coitado, continua insistindo em vão sua entrada no prédio. Quando o porteiro finalmente se vira para pegar o telefone e discar para a polícia, o entregador - já furioso - saca uma arma de dentro do seu casaco de couro preto, aponta para o porteiro e grita: "É um assalto!". O porteiro, em pânico, tenta se corrigir: "Calma, calma... Esquece o que eu te falei, esquece! Você pode subir sim e..." - tarde demais. O entregador dispara três vezes contra o peito do porteiro, que cai morto no chão. Ele chama o elevador e sobe.

8) Uma das senhoras do salão de cabeleireiros - a que ouve a história - orgulhosamente se adianta na conclusão: "eu já sabia, eu já sabia, desde o começo! Por isso, quando eu vejo um preto vindo na rua eu atravesso a calçada..."

domingo, 3 de maio de 2009

O Primo de Jânio

1) Ontem me perguntava o técnico da NET, pelo telefone: "você é parente do Jânio Quadros?" Desde que eu me entendo por gente me fazem a mesma pergunta. Aproveito o espaço aqui para responder em definitivo, a todos: "você é parente do Jânio Quadros?" - sim, primo. Na verdade ele era primo do meu avô, logo sou seu primo em 3º grau.

2) Alguns pseudo-intelectuais, só pelo título, já devem estar me acusando de ter escrito um depoimento digno de revista Caras - e não uma crônica. Não sejam bobos: com toda a sinceridade, eu até gosto de fofocas; mas somente quando não envolvem a minha família. Outros irão além, me acusando de defender a política do Jânio etc., etc. Mas, a possibilidade da política transformar qualquer Homem em grande é a mesma da CCE fabricar um componente eletrônico que preste ou do Bruno Barreto dirigir algum filme que possa assim ser chamado.

3) O que mais me impressiona nesse tipo de pergunta - "você é parente do Jânio Quadros?" - é a constatação de que o ensino de História vai surpreendentemente bem em nosso país. Logo eu que, em tempos de BBB, chego a pensar que o brasileiro não conhece nem a palma da própria mão. O Jânio foi eleito presidente do Brasil no longínquo ano de 1960 e ficou no poder por apenas sete meses. Morreu em 1992, quando eu tinha cinco anos de idade.

4) Imagine agora os membros das famílias Jobim, Niemeyer, Dumont, Senna; quantas dezenas de vezes são interrogados a mais do que eu com a mesma pergunta, diariamente? Geralmente, nesses casos, quanto mais distante o grau de parentesco, maior o tom de orgulho na resposta. Tem gente que arrota sobrenome. Pior: tem gente que arrota até com o sobrenome dos outros, dos amigos - embora, na maioria das vezes, isso não se traduza necessariamente em estabilidade financeira, nem nada. E quem é Jânio Quadros atualmente, senão o nome de um túnel em São Paulo famoso por ficar alagado quando chove?

5) "Era aquele do 'varre, varre vassourinha'?" - ele mesmo; "o que as 'forças terríveis' levaram à renúncia?" - o próprio. Foi quem condecorou Che Guevara, escreveu um dicionário, bebeu mais uísque que dez Lulas juntos etc., etc. E também quem proibiu o lança-perfume, as rinhas de galo e o biquíni nos concursos de miss, além de ter regulamentado o carteado.

6) Eis a questão: acima de tudo, Jânio Quadros foi um moralista. Talvez aí residia o que desperta em mim o sentimento mais próximo de ser chamado de admiração. Pausa. Volto aos pseudo-intelectuais. Desta vez, aposto que estão soltando um sorriso de desprezo: "cadê a liberdade de expressão?"; ou: "estamos no século XXI!"; ou, ainda, a pior de todas: "Ah, mas estamos no Brasil!". Repito: hoje em dia o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de moralista. Mas como enfiar goela a baixo, em um país sem Idade Média, valores que deveriam estar enraizados há séculos na sociedade?

7) Jânio perdera a visão do olho esquerdo após a explosão acidental de um frasco de lança-perfume em um baile de carnaval durante a sua adolescência. Apesar de se dizer um bom cristão, vingou-se (daí a proibição do produto). E a proibição do biquíni? Jânio tentou, sem sucesso, abolir o terno e a gravata também. A campanha da vassourinha, metáfora utilizada por ele para "varrer" toda a corrupção, foi um sucesso; ainda que recentemente tenham descoberto uma conta milionária na Suíça em seu nome, cuja a origem do dinheiro ainda é um tanto quanto duvidosa.

8) Parafraseando o Millôr Fernandes: "imoral, ou moralista, ambos acabam cometendo as mesmas imoralidades. A diferença é que o moralista não se diverte." Não é que eu tenho mesmo um pouco do sangue de Jânio Quadros?

quinta-feira, 12 de março de 2009

Estudo de Suicidologia

1) Eu nunca entendi essa relação entre taxas altas de suicídio e países de clima frio. No mês de fevereiro desse ano, o calor do Rio de Janeiro me deixou deprimido.

2) Como diria o Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas: “A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dôr do calor em todos os corpos que a gente tem... Nem menos sinal de sombra... Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos, arroxeavam as caras... Tive pena do pescoço do meu cavalo – pedação, tábua suante, padecente... A luz assassinava demais”. Eu rezava para chover, todos os dias.

3) Durante o carnaval meu melhor amigo foi o Springer Silentia 7500, o ar-condicionado do meu quarto. Sem ele tudo mais seria o inferno; salvou muitas noites de sono. O que eu mais desejava era estar brincando de fazer boneco de neve em Paris (a França é o país desenvolvido com o 4º maior número de suicídios por ano) ou até mesmo em qualquer outro país do leste europeu (só na Rússia são 60 mil suicídios por ano). Essa história de aquecimento global me assusta mais que qualquer um...

4) Meu pai conta que no dia em que eu nasci os relógios da cidade marcavam 40º. Na maternidade da Praça XV, apenas ventiladores de teto e um odor repugnante de peixe estragado. Eu, com as roupinhas de bebê completamente encharcadas, passava mal, regurgitando todo o leite ingerido. Talvez Freud encontrarasse em episódio tão traumático alguma explicação para a minha total fobia ao calor. Meu primeiro presente, com menos de uma semana de vida, foi o Springer Silentia, talvez por pena alheia.

5) Estamos em março; hoje o dia está abafado. Saio para jantar e no restaurante encontro com uma amiga aos prantos, que me conta que uma amiga dela se suicidou. Por Deus... eu estava certo!