terça-feira, 30 de março de 2010

Rashomon

1) - "Só ri das cicatrizes quem nunca sofreu feridas no corpo" - diz Romeu à Julieta, na segunda cena do segundo ato da peça de teatro mais célebre de todos os tempos.

2) Podemos dizer que a frase é de William Shakespeare, o autor da peça - e não de Romeu. Na verdade, o bardo inglês fala ao público por intermédio de seu romântico personagem. Se querem saber quem é Shakespeare, o procedimento mais razoável é procurar por ele nos personagens que criou. Embora os homens sejam incapazes de falar sobre si mesmos com tal honestidade, é muito mais difícil evitar a verdade quando se finge ser outro. Não há nada que diga mais a respeito de um criador do que sua própria obra.

3) Na semana passada Akira Kurosawa completaria cem anos. Em homenagem, o Instituto Moreira Salles, na Gávea, organizou uma mostra do grande diretor japonês. No programa, "Os 7 Samurais", "Dersu Uzala", "RAN", "Sonhos", entre outros, em um desfile invejável de obras-primas. Na noite inaugural, haveria a exibição de "Rashomon", filme de 1950, que tornou Kurosawa mundialmente conhecido ao vencer o cobiçado Leão de Ouro no Festival de Veneza e logo depois ser contemplado com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como nunca tinha visto o filme e tinha o tempo livre, decidi ir.

4) Ao entrar no Instituto Moreira Salles é inevitável não ser tomado por um duvidoso entusiasmo materialista: - "Como deve ser bom ser dono do Unibanco!" - penso comigo mesmo. A infância dos irmãos Walter e João Moreira Salles naquela casa deve ter sido comparável à de um prícipe do Egito. Você percebe que cada juro do cheque especial que já pagou, cada tarifa abusiva, cada centavo da anuidade do cartão de crédito, do outro lado se converteu em uma bela maçaneta, torneira, estátua ou piscina. Ah, o piso também é deslumbrante.

5) Assim como Moisés, a família Salles também opera milagres. Vejam vocês que, em 2007, o Unibanco me colocou em um grande sufoco ao transformar uma dívida de seiscentos reais em dois mil e oitocentos reais, em questão de semanas. Mas isso não importa. Ou melhor; naquela hora não me importava mais. Estava ansioso pelo filme. Tomo uma Coca-Cola no bistrô e entro na sala de cinema, sentando na terceira fileira.

6) "Rashomon" mostra três viajantes reunidos sob as ruínas de um templo durante uma tempestade. Um lenhador, um sacerdote e um servo fazem uma fogueira e refletem sobre uma história perturbadora. Assim começa uma história dentro da história, sobre um homem e uma mulher casados e um bandido que se encontram em uma estrada na floresta. O lenhador se depara mais tarde com o cadáver do marido e dá seu testemunho diante de uma comissão de polícia que investiga o ocorrido. A explicação horroriza o sacerdote e entretém o servo de tal forma que os mantém ocupados durante toda a tempestade com quatro versões do crime.

7) Em determinado momento do filme há uma cena trágica, onde o marido olha com profundo desprezo a própria esposa, que acabara de ser estuprada pelo bandido. Esta cena me deixou atônito, na ponta da cadeira, com os olhos grudados na tela. As atuações são brilhantes, diga-se de passagem. É quando eu percebo que um idiota, com todas as características de um idiota, está sentado na mesma fileira que eu. Por quê um idiota? Vejam vocês que o sujeito riu na cena do estupro. Isso mesmo: riu.

8) Por um breve instante achei que, mais uma vez, exagerava: talvez o sujeito apenas tivesse se lembrado de uma piada que algum amigo lhe contou algum dia. Oras, seria impossível um ser humano mentalmente sadio achar graça no estupro. Mas logo o tempo se mostrou contra mim: a cada luta de espadas, a cada atitude desesperada pela sobrevivência, o sujeito soltava a gargalhada hedionda. E, por muitas vezes, quase rachou o bico de tanto rir, como se assistisse "Apertem os Cintos: o Piloto Sumiu!" ou "Curtindo a Vida Adoidado".

9) Eis que, na última cena do filme, o sujeito finalmente se cala. E permanece calado por todos os instantes seguintes. Ora, a alma mais negra e mais espessa tem, por vezes, uma nesga de bondade. Seguindo a lógica dos incidentes anteriores, era para ele ter se borrado nas calças. Me deu vontade de cutucá-lo: - "Não vai rir não? Abandonaram um bebê sob as ruínas do templo! Ria, pobre diabo!" - Mas, àquela altura, a sensibilidade de Kurosawa ao dirigir uma cena tão linda, de doer, conseguira o improvável: tocar o coração do mais idiota dos seres. Só um verdadeiro mestre do Cinema conquistaria tal feito - e Kurosawa o fez, com honra ao mérito. As luzes da sala se acendem, indicando o término do filme.

10) Eu estava apertado para ir ao banheiro: a Coca-Cola do bistrô fizera seu efeito diurético durante os noventa minutos de projeção. Ao voltar ao salão principal da mansão e observar novamente todo aquele ambiente luxuoso, me lembrei da minha dívida com o Unibanco dois anos atrás - o que me deixou nervoso. Uma dívida, independentemente de seu valor, é sempre uma tragédia. E, para mim, certamente o foi. E à cada maçaneta, torneira ou estátua que eu olhava, o nervosismo aumentava. Foi então que, no auge do meu nervosismo, senti uma vontade incontrolável de rir. Um riso interno culpado, delicioso. Estacionei pálido na frente da piscina, com as lágrimas quase me saltando aos olhos.

11) E assim, com um grande sorriso no rosto, fui andando até a saída - qual se levasse uma mulher comigo.

1 comentários:

o escritor disse...

se vale de nota curiosa: "os suspeitos(filmaço" de bryan singer, foi feito por causa de rashomon.
Via a inspiração. Valeu Akira.

e você,interessado em conhecer tony?
http://avidadetony.blogspot.com/p/o-comeco.html

em tempos de vírus, pode parecer suspeito o link, mas não é.
pode ser que o texto seja tão ruim, ou até emsmo pior do que os efeitos de um virus.
Tal conclusão eu deixo para você