<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8942877596777770740</id><updated>2011-08-12T07:55:45.471-07:00</updated><title type='text'>Memórias e Confissões</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://brennoquadros.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://brennoquadros.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Brenno Quadros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02096868328813365102</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>4</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8942877596777770740.post-641419255790135635</id><published>2010-03-30T21:17:00.000-07:00</published><updated>2010-03-31T17:11:10.647-07:00</updated><title type='text'>Rashomon</title><content type='html'>1) - "Só ri das cicatrizes quem nunca sofreu feridas no corpo" - diz Romeu à Julieta, na segunda cena do segundo ato da peça de teatro mais célebre de todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) Podemos dizer que a frase é de William Shakespeare, o autor da peça - e não de Romeu. Na verdade, o bardo inglês fala ao público por intermédio de seu romântico personagem. Se querem saber quem é Shakespeare, o procedimento mais razoável é procurar por ele nos personagens que criou. Embora os homens sejam incapazes de falar sobre si mesmos com tal honestidade, é muito mais difícil evitar a verdade quando se finge ser outro. Não há nada que diga mais a respeito de um criador do que sua própria obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) Na semana passada Akira Kurosawa completaria cem anos. Em homenagem, o Instituto Moreira Salles, na Gávea, organizou uma mostra do grande diretor japonês. No programa, "Os 7 Samurais", "Dersu Uzala", "RAN", "Sonhos", entre outros, em um desfile invejável de obras-primas. Na noite inaugural, haveria a exibição de "Rashomon", filme de 1950, que tornou Kurosawa mundialmente conhecido ao vencer o cobiçado Leão de Ouro no Festival de Veneza e logo depois ser contemplado com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como nunca tinha visto o filme e tinha o tempo livre, decidi ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) Ao entrar no Instituto Moreira Salles é inevitável não ser tomado por um duvidoso entusiasmo materialista: - "Como deve ser bom ser dono do Unibanco!" - penso comigo mesmo. A infância dos irmãos Walter e João Moreira Salles naquela casa deve ter sido comparável à de um prícipe do Egito. Você percebe que cada juro do cheque especial que já pagou, cada tarifa abusiva, cada centavo da anuidade do cartão de crédito, do outro lado se converteu em uma bela maçaneta, torneira, estátua ou piscina. Ah, o piso também é deslumbrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Assim como Moisés, a família Salles também opera milagres. Vejam vocês que, em 2007, o Unibanco me colocou em um grande sufoco ao transformar uma dívida de seiscentos reais em dois mil e oitocentos reais, em questão de semanas. Mas isso não importa. Ou melhor; naquela hora não me importava mais. Estava ansioso pelo filme. Tomo uma Coca-Cola no bistrô e entro na sala de cinema, sentando na terceira fileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) "Rashomon" mostra três viajantes reunidos sob as ruínas de um templo durante uma tempestade. Um lenhador, um sacerdote e um servo  fazem uma fogueira e refletem sobre uma história perturbadora. Assim começa uma história dentro da história, sobre um homem e uma mulher casados e um bandido que se encontram em uma estrada na floresta. O lenhador se depara mais tarde com o cadáver do marido e dá seu testemunho diante de uma comissão de polícia que investiga o ocorrido. A explicação horroriza o sacerdote e entretém o servo de tal forma que os mantém ocupados durante toda a tempestade com quatro versões do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) Em determinado momento do filme há uma cena trágica, onde o marido olha com profundo desprezo a própria esposa, que acabara de ser estuprada pelo bandido. Esta cena me deixou atônito, na ponta da cadeira, com os olhos grudados na tela. As atuações são brilhantes, diga-se de passagem. É quando eu percebo que um idiota, com todas as características de um idiota, está sentado na mesma fileira que eu. Por quê um idiota? Vejam vocês que o sujeito riu na cena do estupro. Isso mesmo: riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8) Por um breve instante achei que, mais uma vez, exagerava: talvez o sujeito apenas tivesse se lembrado de uma piada que algum amigo lhe contou algum dia. Oras, seria impossível um ser humano mentalmente sadio achar graça no estupro. Mas logo o tempo se mostrou contra mim: a cada luta de espadas, a cada atitude desesperada pela sobrevivência, o sujeito soltava a gargalhada hedionda. E, por muitas vezes, quase rachou o bico de tanto rir, como se assistisse "Apertem os Cintos: o Piloto Sumiu!" ou "Curtindo a Vida Adoidado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9) Eis que, na última cena do filme, o sujeito finalmente se cala. E permanece calado por todos os instantes seguintes. Ora, a alma mais negra e mais espessa tem, por vezes, uma nesga de bondade. Seguindo a lógica dos incidentes anteriores, era para ele ter se borrado nas calças. Me deu vontade de cutucá-lo: - "Não vai rir não? Abandonaram um bebê sob as ruínas do templo! Ria, pobre diabo!" - Mas, àquela altura, a sensibilidade de Kurosawa ao dirigir uma cena tão linda, de doer, conseguira o improvável: tocar o coração do mais idiota dos seres. Só um verdadeiro mestre do Cinema conquistaria tal feito - e Kurosawa o fez, com honra ao mérito. As luzes da sala se acendem, indicando o término do filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10) Eu estava apertado para ir ao banheiro: a Coca-Cola do bistrô fizera seu efeito diurético durante os noventa minutos de projeção. Ao voltar ao salão principal da mansão e observar novamente todo aquele ambiente luxuoso, me lembrei da minha dívida com o Unibanco dois anos atrás - o que me deixou nervoso. Uma dívida, independentemente de seu valor, é sempre uma tragédia.  E, para mim, certamente o foi. E à cada maçaneta, torneira ou estátua que eu olhava, o nervosismo aumentava. Foi então que, no auge do meu nervosismo, senti uma vontade incontrolável de rir. Um riso interno culpado, delicioso. Estacionei pálido na frente da piscina, com as lágrimas quase me saltando aos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11) E assim, com um grande sorriso no rosto, fui andando até a saída - qual se levasse uma mulher comigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8942877596777770740-641419255790135635?l=brennoquadros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://brennoquadros.blogspot.com/feeds/641419255790135635/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8942877596777770740&amp;postID=641419255790135635&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/641419255790135635'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/641419255790135635'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://brennoquadros.blogspot.com/2010/03/rashomon.html' title='Rashomon'/><author><name>Brenno Quadros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02096868328813365102</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8942877596777770740.post-7032341928807745819</id><published>2010-01-04T19:09:00.001-08:00</published><updated>2010-01-19T17:47:38.124-08:00</updated><title type='text'>O Cemitério de Japaratuba</title><content type='html'>1) Me disse o Walter Lima Jr. certa vez: - "O que faz o lugar são as pessoas." E quem me disse isso não foi o Walter Lima Jr. diretor, roteirista, produtor, montador - e sim o Walter Lima Jr. ser humano, com o perdão do clichê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) O curso de Cinema da PUC é engraçado. Lá, os estudantes (como o nome sugere), ainda não são nada; no entanto, todos se dizem diretores, roteiristas, produtores, montadores. Antes que me perguntem: sim, eu também sou estudante de Cinema da PUC. Sou um réu confesso. E o Walter Lima Jr. é professor. Somos dois réus confessos - porém, com as devidas ressalvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) O hábito de se trancar em uma sala escura e assistir filmes durante horas deixa todos os estudantes de Cinema da PUC com uma palidez mórbida. Repito: mórbida. Mesmo eu, que nunca gozei de uma saúde exemplar, me sinto um Michael Phelps ao adentrar a sala de aula. Isso, graças às minhas faces minimamente ruborizadas da natação. Também é curioso observar que os estudantes de Cinema da PUC não gostam de Cinema. Isso mesmo. Eles detestam o Hitchcock, odeiam o Fellini, abominam o Bergman. Na PUC, o sujeito enche a boca pra dizer que foi terceiro assistente de direção em 'Última Parada 174' mas não derrama uma lágrima em 'Ladrões de Bicicleta' ou no discurso final do Chaplin em 'O Grande Ditador'. O glamour em torno da profissão é maior que qualquer outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) Imaginem vocês se o Walter Lima Jr. saísse pelos corredores da universidade gritando: - "Eu escrevi o roteiro de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol!'" ou: - "Eu dirigi 'A Ostra e O Vento!'" Pelo contrário, ele se contenta em rir com uma cena dos Irmãos Marx ou do Peter Sellers.  A minha ira aos estudantes de Cinema da PUC é tamanha que chego ao ponto de querer escrever: &lt;em&gt;qualquer salva-vidas de piscina é mais importante que um cineasta&lt;/em&gt;. Posso enfatizar: &lt;em&gt;o título de cineasta é inútil no afogamento&lt;/em&gt;. Mesmo ciente de que não é razoável comparar duas funções e finalidades diferentes (como um cineasta e um salva-vidas certamente os são), aposto que o Walter Lima Jr. concordaria comigo. E olha que o Walter Lima Jr. é um dos maiores amantes do Cinema que eu já tive o prazer em conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Em julho, viajei à Aracaju em companhia do meu tio Bob - um norte-americano apaixonado pelo nordeste do Brasil. Por um dia, pegamos o bugre para conhecer o pequeno município de Japaratuba, a uma hora da capital sergipana. Foi lá que o Tio Bob viveu nos anos 70, quando preferiu um trabalho de eletrificação do interior de um antigo país de 3º mundo a lutar na Guerra do Vietnã. A caminhada pela pracinha, pela igreja e pelos bares corria muito bem, obrigado. Até que o Tio Bob se vira para mim e dispara: - "vamos ao cemitério?" Era inevitável esconder o meu desconforto diante do inusitado convite: eu só pisara em um cemitério uma única vez, no Rio de Janeiro, enterro do pai de uma amiga minha. Mas, para não bancar o sem-educação, respiro fundo e finjo agir naturalmente: - "claro, sem problemas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) Guardando o portão está um coveiro. Meu tio pergunta, com seu sotaque carregado: - "Faz mal entrar aí?" "Pode fazer mal ao senhor." - responde o espirituoso coveiro. Meu tio ri e entra, seguido por mim. Lá dentro, um calor senegalês. A pobreza do lugar é quase fotojornalística: montes de terra iguais, com uma cruz de madeira cravada em cima. Nada de anjos, lápides, mausoléus ou outras tentativas de se embelezar a morte. Ele me chama para ver o primeiro túmulo. Me aproximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) - "Está vendo este aqui? Era o Piolho, um grande amigo meu. Jogava futebol como ninguém. Um verdadeiro artilheiro." Não sei se o calor forte na cabeça me fez delirar mas, na hora, comecei a imaginar o Piolho correndo o campo inteiro, driblando o goleiro e chutando em gol... Meu tio continua: - "Trabalhamos juntos na prefeitura da cidade. Nós saíamos de lá direto pra jogar, todas as noites. Os jogos eram verdadeiros acontecimentos, todos iam assistir o time local contra um time de alguma cidade vizinha." Eu imaginava noites cobertas pela fumaça dos fogos de artifício, arquibancada cheia de pais e filhos, cheiro de pipoca no ar. Meu tio trava por um instante: - "Ele infartou em 2004; uma pena." Percebo que, para ele, a visita ao cemitério era uma jornada sentimental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8) Após fazer o sinal da cruz, se afasta, em direção ao segundo túmulo: - "Esta aqui era a Fátima, uma moça muito bonita... Todos os rapazes da cidade eram apaixonados por ela. Morreu ainda jovem, nos anos setenta, em um acidente de carro." E de fato... como a Fátima era bonita! A fotografia no túmulo mostrava o rosto de uma moça de cabelos pretos curtos, brincos dourados e um belo sorriso. Imaginei todos os rapazes da cidade disputando a atenção da moça com buquês de flores, serenatas, jóias... E o pai - um gordinho de longos bigodes negros - proibindo sua saída de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9) E assim continuamos, andando e parando, por mais uns cinco ou seis túmulos. A cada um deles,  o Tio Bob contava uma história mais incrível do que a outra. A essa altura já era impossível esconder o meu entusiasmo. Ao imaginar o Piolho, a Fátima, ou qualquer um daqueles personagens fantásticos, sentia uma vivacidade nunca sentida antes. E foi então que lembrei da frase do Walter Lima Jr. - "O que faz o lugar são as pessoas." Era o óbvio, mais uma vez se exibindo diante de mim, em toda a sua obviedade: aquelas pessoas enterradas no cemitério de Japaratuba estavam mais vivas que os estudantes de Cinema da PUC.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8942877596777770740-7032341928807745819?l=brennoquadros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://brennoquadros.blogspot.com/feeds/7032341928807745819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8942877596777770740&amp;postID=7032341928807745819&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/7032341928807745819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/7032341928807745819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://brennoquadros.blogspot.com/2010/01/o-cemiterio-de-japaratuba.html' title='O Cemitério de Japaratuba'/><author><name>Brenno Quadros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02096868328813365102</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8942877596777770740.post-210567388343605626</id><published>2009-09-10T17:09:00.000-07:00</published><updated>2009-09-28T20:10:22.390-07:00</updated><title type='text'>O Sotaque Nordestino</title><content type='html'>1) Nenhuma crítica pode ser construtiva. Até hoje, todas as criticas construtivas que recebi, me destruíram. Crítica construtiva é uma contradição em termos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) Por exemplo: no mês de julho, a Madalena, minha cunhada, me chama: - "Brenno, tenho uma crítica construtiva a te fazer." Disfarço a minha preocupação: - "Prossiga, prossiga..." E ela: - "Três amigas minhas que foram no show dos Ganeshas ontem gostaram muito de toda a banda, menos do seu sotaque nordestino." Já fico estremecido por dentro. Ela ainda completa, como quem dá uma última punhalada: - "Você é carioca, cara... Fica um pouco forçado."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) Não foi uma, nem duas, mas três pessoas criticando a mesmíssima coisa, da primeira à última palavra: o sotaque nordestino. Ao longo da vida, é importante não perdermos a capacidade de nos espantarmos com as coisas. E eu fiquei espantado como há muito não ficava. Minto. Há pouco tempo me espantei quando uma professora da PUC me disse que sentia mais prazer ouvindo a 5ª Sinfonia de Beethoven do que tendo uma relação sexual. Oras, tudo bem que música é admirável, literatura é sublime... Mas só o sexo provoca ereção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) Meu amigo Caio Moraes é o oposto: ele não se espanta com nada, absolutamente nada. A faculdade o transformou em um estudante de História radiante de o ser. E ele não diz um "oba" sem lhe pingar História. Se eu lhe contasse que fulano matou o pai e depois se casou com a própria mãe, ele não se espantaria. O Caio não se espanta. Um historiador não se espanta. Recorreria à Grécia Antiga, a Eurípedes, Ésquilo e Sófocles: - "Édipo Rei também fez isso" - seria uma possível resposta do Caio. Ou seja: tudo tem sua justificativa nos cursos da História.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Outro dia, o Caio me chamou de intelectual. Tive que rir: perto do Caio, eu sou de uma ignorância enciclopédica. Mas pouco importa. Onde estava mesmo? Ah, sim, falava do meu sotaque nordestino. Em um primeiro momento, tento explicar à Madalena que os Beatles também foram criticados no início da carreira porque eram ingleses e cantavam com sotaque norte-americano. Lembro-me do Paul McCartney declarando, em uma entrevista: - "Nós ouvíamos muito o Elvis Presley." Comigo aconteceu o mesmo: eu ouvi muito o Raul Seixas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) E aquele sotaque da Bahia, aquela irreverência, aquela malícia, se tornaram as minhas referências naturais. Forçado seria tentar puxar mais o "r" e o "s" na hora de cantar. Eu não canto assim. Se a ópera, para soar bem, tem que ser em italiano ou em alemão, pra mim, o rock brasileiro tem que ter o sotaque nordestino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) Em um segundo momento, tento explicar à Madalena que o vocalista é sempre o maior alvo das críticas, pois é quem está mais exposto sob os holofotes. Pergunto a ela: - "Ninguém falou do sotaque nordestino das guitarras, não é?" Ela não entende: - "Como assim?" Insisto: - "As guitarras... Alguém reclamou?" E ela - "Não..." Pois é, ninguém reclamou. Mas, o Keleta toca guitarra como um menininho do sertão toca uma viola caipira ou uma sanfona, descalço, pedindo esmola, dentro de um trem. E ninguém reclama de nada, porque é maravilhoso. Ouçam "A Indesejada".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8) A minha resistência em ouvir artistas novos é inversamente proporcional à quantidade de propaganda que os mesmos recebem. Recentemente fui apresentado - após quase dois anos de seu laçamento - a "Back to Black", CD vencedor de cinco Grammys, da Amy Winehouse. Eu só a conhecia pelas fotos escandalosas no tablóide The Sun, sempre bêbada, com um cigarro na boca- e pelo hit "Rehab", que nunca me chamou muito a atenção. Pensava comigo mesmo: - "é puro marketing, nenhuma música..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9) Eis que, ao ouvir o CD inteiro pela primeira vez, cheguei à conclusão óbvia: "Back to Black" é uma obra-prima contemporânea. E a Amy Winehouse é branca, inglesa, mas canta como uma negrinha do Mississipi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8942877596777770740-210567388343605626?l=brennoquadros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://brennoquadros.blogspot.com/feeds/210567388343605626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8942877596777770740&amp;postID=210567388343605626&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/210567388343605626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/210567388343605626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://brennoquadros.blogspot.com/2009/09/o-sotaque-nordestino.html' title='O Sotaque Nordestino'/><author><name>Brenno Quadros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02096868328813365102</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8942877596777770740.post-5192191913299867017</id><published>2009-08-15T17:19:00.000-07:00</published><updated>2009-08-26T18:03:54.009-07:00</updated><title type='text'>Cheirinho de Paris</title><content type='html'>1) A elite do Brasil despreza o Brasil. Para fugir da obviedade, hoje vou recorrer ao Orkut - sim, o Orkut. Esta fantástica rede virtual de relacionamentos é um espelho da nossa sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) Antes de prosseguir, me sinto no dever de compartilhar com os leitores o meu desprezo pelos que não têm Orkut. Desculpem o exagero: desprezo determinados amigos que já tiveram Orkut, mas apagaram a conta sob alegação de "não ter tempo". Ora, isso não é desculpa. Ter Orkut nos dias de hoje se mostra tão necessário e obrigatório quanto ter uma carteira de identidade ou um CPF. A pessoa que não tem Orkut não existe. Logo, ainda corre o risco de  acabar como indigente na mesa dos estudantes de medicina da UFRJ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) No Orkut percebo um dado curioso: noventa - para não dizer cem - por cento dos usuários oriundos de classes sociais mais abastadas têm o seguinte álbum de fotos: "Europa", ou "Eurotrip"; seguido sempre do ano da viagem (2009, 2008, etc., etc.). É uma fórmula, observem. Encontra-se ainda muitos: "Disney" ou até mesmo "Mochilão Buenos Aires", seguidos também pela data. Jamais você verá um "Amazonas 2007" ou um "Pantanal 2006". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) Lembro-me de quando a crise no Senado começou e o presidente Lula estava em Paris. Ora, um presidente da república deveria ser proibido de sair do próprio país. Não me venham falar que o nacionalismo é um sentimento ultrapassado, que os conceitos de fronteira mudaram com a globalização, etc., etc. Vejam o exemplo do Jorge de Lima e do Ariano Suassuna: os dois nunca saíram do Brasil. Certa vez, o poeta alagoano autor de A Inveção de Orfeu afirmou, sem nenhum pudor: "nunca saí do Brasil e não sinto necessidade disso". O Suassuna, por sua vez,  conheceria Portugal, no máximo, por ser um dos países que têm ao menos "o bom senso de falar português". Caso contrário, O Auto da Compadecida, A Pedra do Reino e outras jóias da dramaturgia brasileira não existiriam. A Paris do Suassuna é João Pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Ao citar Paris, lembro-me da Livraria da Travessa. Trabalhei como vendedor de CDs e DVDs da loja do Shopping Leblon durante um ano. Certa vez, uma senhora (muito bem arrumada, diga-se de passagem) me pediu: - "Gostaria de um CD com cheirinho de Paris... O que você tem?". Fiz uma breve pausa. Fingi não entender o tom figurativo da sua pergunta: - "Mas como assim cheirinho de Paris, minha senhora?". Ela continuou: - "Ah, quero ouvir uma &lt;em&gt;chanson&lt;/em&gt; que me lembre uma boa taça de vinho sob a &lt;em&gt;Tour Eiffel&lt;/em&gt;, em uma tarde ensolarada". Fiquei apavorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) Aquilo já era estupidez demais para mim: "&lt;em&gt;chanson&lt;/em&gt;", "&lt;em&gt;Tour Eiffel&lt;/em&gt;", "tarde ensolarada"... A reação adequada seria rir na cara dela. Porém, devido às leis éticas que me guiam inconscientemente, me segurei, engoli seco. Preferia não acreditar no que acabara de ouvir. Fui obrigado a passar a bola para um outro vendedor, o Renan; teria sido contrário aos meus princípios indicar a tão nobre senhora um CD da Edith Piaf ou do Charles Aznavour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) Lembrei-me da frase do Nelson Rodrigues: "qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas". O mesmo vale para a música. Se o Charles Aznavour fosse brasileiro, seria apenas um Roberto Carlos sem a mesma emoção. A França, pobre coitada, nunca pariu um Milton Nascimento, um Luiz Gonzaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8) A resposta do Renan beirou a genialidade, era o vômito triunfal do povo brasileiro, que estava engasgado há tempos: "Minha senhora... Serve cheirinho do bueiro parisiense?"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8942877596777770740-5192191913299867017?l=brennoquadros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://brennoquadros.blogspot.com/feeds/5192191913299867017/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8942877596777770740&amp;postID=5192191913299867017&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/5192191913299867017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8942877596777770740/posts/default/5192191913299867017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://brennoquadros.blogspot.com/2009/08/cheirinho-de-paris.html' title='Cheirinho de Paris'/><author><name>Brenno Quadros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02096868328813365102</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
